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Críticas

| filme 06 | O ADVOGADO DO DIABO




Temos o direito de escolher! Devemos esperar as consequências.


–  Escute aqui, vou te dar algumas informações sobre Deus. Deus gosta de observar. Ele é um gozador. Pense. Ele dá instintos ao homem. Ele dá a você esse extraordinário dom, e o que faz depois? Eu juro, para a própria diversão dele, para sua própria comédia cósmica particular, ele cria regras contrárias. É a maior piada de todas. Olhe, mas não toque. Toque, mas não prove. Prove. Não engula. E, enquanto você pula de um pé para o outro, o que Ele faz? Ele fica se mijando de tanto rir. Ele é um sacana. Um sádico. Ele é um patrão ausente. Adorar isso? Nunca
– “É melhor reinar no inferno que servir no céu”, não é?
–  Por que não? Estou aqui com o meu nariz no chão desde que tudo começou. Eu nutri cada sensação que o homem foi inspirado a ter. Eu me preocupei com seus desejos e nunca o julguei. Por quê? Porque eu jamais o rejeitei, apesar de suas imperfeições. Eu sou um fã do homem! Eu sou um humanista. Talvez o último humanista. Quem, em sã consciência, poderia negar que o século XXI foi inteirinho meu? O século todo! Todo! Meu! Estou no topo, Kevin. É a minha vez agora. É a nossa vez.

Travestido de filme de terror o Advogado do Diabo é, na verdade, um filme sobre o livre arbítrio e suas consequências. Vemos na tela uma profusão de caminhos duplos e escolhas que o personagem principal deve fazer.

Kevin Lomax (Keanu Reeves) é um advogado que trabalha em uma cidade no interior da Flórida. Casado com Mary Ann (Charlize Theron), ele vive uma vida sem maiores luxos, porém é feliz ao lado da mulher. Conhecido na cidade por ser o advogado que nunca perdeu um caso. Por conta da fama que construiu ele recebe um convite para trabalhar no escritório de John Milton (Al Pacino – perfeito!), o maior da cidade de Nova York. Seduzidos pela promessa de mais dinheiro e maior status, o jovem casal aceita o convite.

- Sei que você tem talento. Já sabia antes de você chegar. Só me preocupa a outra coisa.
- Que coisa?
- A pressão. A pressão muda tudo. Existem pessoas que quanto mais pressionadas, mais se concentram. Há outras que se dobram. Consegue ter o talento quando precisa dele? O trabalho termina no prazo? Consegue dormir?
- Quando falamos de dinheiro?
- Dinheiro? Isso é o mais fácil.

A ida ou não para a cidade grande é a primeira escolha da nova vida dos Lomax. Rapidamente, Kevin se vê obrigado a mergulhar de cabeça no trabalho. Situações surgem e ele não consegue mais se afastar da nova rotina. Mais trabalho, menos convivência com a mulher. Primeira consequência de uma decisão tomada. A relação começa a sofrer um desgaste e Mary Ann inicia um processo quase irreversível de depressão.

Um dos pontos mais interessantes do filme é que os momentos de escolha são colocados de diferentes formas. Por vezes vemos as situações claramente representadas, em outros momentos aparecem sugestões. Uma cena emblemática do filme: Kevin, sua mãe e Mary Ann sobem no mesmo elevador que John Milton e mais duas mulheres. A família Lomax sai do elevador primeiro, porém John chama por Kevin e, quando somente ele está olhando, faz um convite para que ele vá até seu apartamento. No mesmo instante as duas mulheres começam a trocar carícias, enquanto John insiste no convite. A tentação não é apenas para aquela situação, mas um resumo de toda luxúria que já rodeia o jovem advogado. Sem perceber, ele é jogado (junto com a mulher) numa rede de ganância e inveja.

- Tenho de voltar, Kevin. Sinto a falta da igreja.
- Isto é Nova Iorque. Deve haver aqui umas 20.000 igrejas. É só escolher.
- Trata melhor a Mary Ann. Ela não está bem. Este lugar não é bom para ela.
- Então fique. Cuide dela, já que está tão preocupada. Ajude-me.
- Posso levá-la para casa, se você deixar.
- Esta é a casa dela. Entendeu? É aqui que moramos. Eu não volto para Gainesville. Inacreditável.
- "Larga é a porta... e espaçoso o caminho que conduz à perdição.
- É cedo para ouvir o sermão. Tenho de ir trabalhar. Faça o que bem entender.

Kevin á alertado sobre as escolhas que anda fazendo. Esse é o papel exercido pela sua mãe. A figura de uma mãe religiosa não poderia ser mais adequada. Kevin não escuta os conselhos dela, assim como todos nós não escutamos conselhos quando eles surgem dos lugares mais óbvios. Sempre procuramos conselhos em figuras misteriosas por quem nutrimos uma certa idolatria (pela posição social que ocupam, pelo sucesso que alcançaram ou simplesmente pelo dinheiro que possuem). Ouvir conselhos de uma mãe, ainda por cima “carola” da igreja? Quem nunca desdenhou de um conselho desses?

“Eu sei por que é que isto está a acontecendo. É melhor você dormir. É o dinheiro. Dinheiro de sangue. Nós dois o aceitamos. Sabíamos. Era ganhar e ficar com o dinheiro.
Sabíamos que eles eram culpados. Mas você continuava ganhando, uma depois da outra. Sou incapaz de me olhar ao espelho. Vejo um monstro.”


Cada escolha, cada livre convencimento do personagem principal não é induzido pela gama de abutres que o cerca (quando estão tomadas pelo pecado e pelos sentimentos negativos os personagens ganham feições assustadoras, por segundos). Todas as decisões são tomadas por ele mesmo. Ganância, vaidade, egoísmo etc, somos capazes de unir os piores sentimentos para convencermos a nós mesmos e aos outros. Cegos, não percebemos que o livre arbítrio é um teste, uma prova que acontece centenas de vezes durante os dias que vivemos. Para decidir certo, o segredo é antecipar os resultados em nossa cabeça. Escolher diversos caminhos e saber diferenciar os bons daqueles que foram motivados por sentimentos ruins. E, acima de tudo, é preciso saber que as más escolhas voltam para nos atormentar.

| filme 05 | LINCOLN





Steven Spielberg tem cheiro de Oscar. Mas, nem sempre foi assim. Até o aclamado A Lista de Schindler, o diretor americano mais famoso da história era um solene ignorado por Hollywood. Com o filme de 1992, Steven faturou o prêmio de melhor diretor (bisado em 1998 com O Resgate do Soldado Ryan) e parece ter encontrado a fórmula para ser sempre favorito aos Oscars que concorre. Em comum seus dois filmes que lhe renderam estatuetas e Lincoln tem uma coisa: são histórias reais (em que pese O Resgate do Soldado Ryan ser uma criação ficcional em cima de uma história real). Pois, parece que a indústria de Hollywood não curte o Spielberg da ficção, ela leva mais a sério o diretor que coloca sua visão em fatos marcantes da história americana.

Em Lincoln vemos os bastidores que antecederam a votação da histórica emenda número 13, que veio para abolir a escravidão nos Estados Unidos. Em plena guerra civil americana, o norte abolicionista e o sul escravocrata eram governados pelo presidente Abraham Lincoln. No meio do turbilhão provocado pela guerra, Lincoln decide usar a emenda como ponto crucial para o fim da mesma, omitindo que os dois lados da disputa já acenavam com uma trégua. Usando politicamente a batalha entre sul e norte para conseguir seu objetivo, ele junta um grupo de lobistas (prática centenária e profissional na américa do norte) e faz valer seu charme e seus "causos" para conquistar simpatizantes.

O drama de fatos reais (mesma categoria do grande rival no Oscar 2013 - Argo) pode sofrer um certo preconceito no Brasil porque é demasiado arrastado e extremamente realista, com muitos nomes, muito papo, enfim, muita política. Mas, para quem tem interesse histórico é interessante ver os embates no acalorado congresso, onde duelam republicanos abolicionistas e mais humanos e democratas extremamente arrogantes e ligados ao modus operandi escravocrata. Em pouco mais de 100 anos impressiona que o papel de vanguarda não cabe mais ao partido republicano.



Spielberg fez com Lincoln um exercício de direção bem próximo ao de A Lista de Schindler. Closes longos no seu protagonista, fotografia escura, reconstituição de época apuradíssima, um clímax (o momento da votação) e campo farto para o seu personagem principal brilhar. Se Liam Neeson deu show como o médico Oskar Schindler, Daniel Day-Lewis impressiona e choca com a caracterização do presidente americano. Físico, olhar, voz, postura, roupas. Parece que Lincoln ressuscitou e decidiu fazer um filme com Spielberg. Daniel está em outro patamar na arte de atuar. E, salvo uma surpresa monumental, vencerá o terceiro Oscar da sua carreira. Tommy Lee Jones e Sally Field (ambos indicados ao Oscar) também estão perfeitos.

Lincoln não é o melhor Spielberg, mas é uma aula de história com um professor sensacional.


As indicações de Lincoln ao Oscar 2013: melhor filme, ator, ator coadjuvante, atriz coadjuvante, diretor, roteiro adaptado, fotografia, figurino, trilha sonora original, mixagem de Som, design de produção, edição.

| filme 04 | SUPER 8


ET do Spielberg é sempre bom!




Não é de hoje que o selo de qualidade Spielberg produz filmes com uma temática alienígena. E.T – O Extraterrestre está aí para pontuar a questão. Acontece que numa de suas mais famosas incursões pelo universo de “fora da Terra”, Spielberg fez mais uma fábula sobre aceitação e amizade: um menino (filho de pais separados), esquisito, rejeitado, que conhece um alien, o abriga e precisa aprender a conviver com as diferenças, até que dessa relação surge uma linda história de amizade. Agora, como produtor, o grande mestre do cinema americano vê seu pupilo J. J. Abrams fazer uma grande homenagem ao cinema de suspense.

Super 8 é um filme de gênero. E isso não é vergonha, porque ele assim se assume desde o início, e dentro do contexto em que a narrativa acontece absolutamente tudo nos remete aos grandes suspenses de aventura que povoaram nossas telas na década de 70 e 80. Mas, em que pese as inúmeras e fantásticas sequências de tensão e perda de folego que temos o prazer de assistir, Super 8 ainda se estabelece como um filme que busca um certo sentido para os grandes conflitos da humanidade. Temos uma relação conturbada do protagonista com seu pai, uma família destruída pela falta de amor, outra por uma fatalidade, crianças esquisitas, jovens apaixonados, perda da confiança, sua reconquista...e bota muita reticência aí.


A história é clássica: um grupo de crianças, fanáticas por filmes de terror, vive os dias entre o colégio e as fimagens de uma produção amadora em super 8. Em uma noite, decidem ir para uma estação de trem, afim de usá-la como locação da obra. Lá testemunham um acidente gigantesco com um trem e um carro que se choca contra ele. Cada um corre pra um lado, mas a pequena câmera Super 8 filma tudo. Mais adiante, nós e dois dos meninos somos apresentados aos conjuntos de quadros filmados. Nada que nos surpreenda tanto, porque nessa altura do campeonato já mais do que sabemos do que se trata o grande mistério. São muitos sustos. Em um deles, dei um salto mortal, estilo “duplo twist carpado”, e assustei por tabela a minha mãe que cochilava ao meu lado.

A escolha do elenco foi muito bem feita. Joe Lamb o jovenzinho que é filho do delegado da cidade e fio condutor da história é interpretado pelo garoto Joel Courtney (a cara de criança adulta é perfeita para um personagem que tem uma história trágica para contar), outro destaque vai para a razão do afeto do menino Joe: a “atriz” do filmete em super 8, Alice Dainard, interpretada com maestria pela jovem Elle Fanning, irmã mais nova (e parece que mais talentosa) da já famosa Dakota. Falar sobre a qualidade técnica do longa é “chover no molhado”. Um filme com a produção do gênio não tem como sair com menos do que nota 9 no assunto. Fora isso, Super 8 é desses filmes para chamar os amigos, fazer pipoca em grande quantidade, comprar refrigerante e tomar muito susto. No fim, os conflitos são resolvidos com o grande jogo de imagens + ótima trilha sonora + excelentes interpretações.

Cinemão do melhor estilão, vindo diretamente de Hollywood, para nos entreter!

| filme 03 | UP - ALTAS AVENTURAS




O cinema já produziu muitas duplas de sucesso. Muitos pares que carregaram tantos e tantos filmes nas costas. Do drama até a comédia. Do terror até as animações. E é de uma animação que surge uma das melhores duplas dos últimos tempos: Carl Fredricksen, um velhinho ranzinza de 78 anos; e Russell, um esforçado escoteiro, de 8 anos, que nos dá vontade de carregar para casa tamanha a fofura.

Ainda que as aventuras produzidas nos estúdios da Pixar sejam fábulas, com histórias quase inverossímeis, as relações sociais que se estabelecem são bem verdadeiras. E é o que acontece aqui. Carl é um senhor aposentado, ex-vendedor de balões, que vive saudoso por não ter mais sua amada esposa ao lado. Ele não teve filhos com ela, apesar das tentativas. Temos aqui um filme para a família com uma nova idéia de família. Já Russel é um escoteiro que tem uma meta: precisa conseguir um ato de bravura para completar sua coleção de medalhas no grupo de escoteiros.

Da total incompatibilidade inicial até uma profunda e forte amizade, que vence as barreiras do tempo, das expectativas de vida e das personalidades. Na verdade, Russel é tudo que Carl foi no passado, mas que, por contingências da vida, deixou de ser. O que é uma dupla de amigos verdadeiros senão aquela relação onde um enfrenta os medos do outro, pelo outro, e o ajuda a vencer a infelicidade? Pois, Russel exerce de forma arrebatadora essa tarefa. Na verdade, seu grande ato de bravura e resgatar Carl de volta para a vida.

Não é sensacional quando a gente pode devolver alguém para uma vida de alegrias? Ser amigo é ir junto à curtição ou descartar a possibilidade mais fácil e ajudar a enfrentar o caminho mais difícil? Russel começa essa história querendo apenas fazer a boa ação para conseguir a medalha, no fim ele descobre como deve ser um amigo verdadeiro. Já passei por situações semelhantes. Tentei ser como Russel, mas não agüentei a reação que o meu “Carl” da vez teve. Não tive a mesma força de vontade que o escoteiro-herói, não tinha nenhuma medalha para conquistar e sequer me incomodava com isso.